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E se fosse comigo?

paulaneurociencias
há 3 dias
5 min de leitura

A forma como algumas pessoas ignoram ou desvalorizam a dor associada à doença mental é assustador e representa, sem dúvida, um reflexo da dificuldade que ainda existe em procurar conhecimento e desenvolver uma verdadeira compreensão sobre a saúde mental.


Fica aqui uma breve tentativa de esclarecer algumas questões muito básicas, mas que continuam a precisar de ser ditas.


Se uma pessoa diz que não consegue sair da cama, pensa em suicídio ou anda completamente desmotivada e desligada do mundo à sua volta, não se trata de um capricho, muito menos de preguiça. Chama-se dor!

Já parou para pensar o quanto essa pessoa sofre quando percebe que não está a conseguir concretizar os seus sonhos porque não encontra forças para o fazer? E, como se isso não bastasse, ainda tem de lidar com a dificuldade dos outros em compreender que aquilo que está a viver não é uma escolha, mas pode ser uma manifestação de doença?


Se uma pessoa descreve dores no peito, angústia, inércia, dificuldade em trabalhar e, além disso, já percebeu que, por vezes, desaparece, saiba que pode estar a esconder-se para conseguir lidar com aquilo que sente. Chama-se dor!

Porque já é suficientemente difícil gerir emoções que parecem multiplicar-se dentro de si. Ter ainda de enfrentar os olhares, os julgamentos e as críticas de quem não compreende torna tudo muito mais doloroso.

Reflita, por momentos, sobre o que sente alguém que começa a perceber que está prestes a entrar num estado emocional que a leva a precisar de se afastar e se esconder, até conseguir sentir-se melhor. E que, depois, regressa ao mundo, tentando agir como se nada tivesse acontecido...pois sabe que não iriam compreendê-la!


Se uma pessoa demonstra um medo extremo de que aconteça uma catástrofe, de que alguém morra, ou manifesta uma angústia e um desespero que, aos seus olhos, parecem exagerados, lembre-se: para essa pessoa, o sofrimento é real. Chama-se dor!

Imagine como se sente quando riem daquilo que conta, quando, para si, aquilo que está a viver não é uma fantasia, mas uma realidade assustadora.

Imagine ter a certeza de que algo terrível vai acontecer, de que a vida das pessoas que mais ama está em risco e, quando procura ajuda ou tenta explicar o que sente, as pessoas de quem espera compreensão riem-se de si.

Consegue imaginar o que isso representa?


Se uma pessoa, por momentos, deixa de reconhecer quem você é, grita consigo, insulta-o ou morde-o, importa perceber o que está por detrás daquele comportamento. Chama-se dor!

Mas importa compreender também que, em determinadas situações, estes comportamentos podem estar associados a alterações cognitivas, neurológicas ou psiquiátricas que exigem avaliação e cuidados adequados.

Sabia que algumas destas pessoas podem ter momentos de lucidez? Sabia que, nesses momentos, podem perceber aquilo que fizeram ou disseram?

Consegue imaginar o sofrimento que essa consciência pode provocar?

Contraditório, não acha?


A dor, seja ela qual for, é real. Até aquela que sentimos na barriga quando temos de regressar à escola depois de um dia anterior particularmente difícil.


A dor na saúde mental também é real!


A pessoa que não consegue sair da cama pode, naquele momento, sentir que não tem forças para o fazer. Talvez ainda não tenha encontrado o acompanhamento, as estratégias ou o apoio de que precisa para voltar a reconhecer as suas capacidades e recuperar, passo a passo, a sua força.


A pessoa que vive com um aperto no peito está a experienciar uma realidade que pode incapacitá-la durante horas ou até dias. Não porque queira, não porque tenha escolhido sentir-se assim, mas porque pode, ainda, não ter encontrado as ferramentas e o acompanhamento necessários para compreender e enfrentar o que está a viver.


Se alguém descreve situações que, aos nossos olhos, parecem surreais, precisamos de perceber que essa pode ser a realidade que a pessoa experiencia. O seu sofrimento não deixa de existir só porque não conseguimos compreender a sua origem ou porque nunca vivemos algo semelhante.

Talvez essa pessoa ainda não tenha encontrado quem compreenda a importância de respeitar a sua experiência, sem desvalorizar aquilo que sente e sem deixar de procurar a ajuda adequada.


E aquela pessoa que vive entre momentos de lucidez e de confusão, que por vezes deixa de reconhecer as pessoas que ama e que, noutras alturas, recupera essa consciência?

Também sofre.

Pode sofrer por aquilo que faz, por aquilo que diz, pelo que consegue ou não consegue recordar e pela dificuldade de compreender o que lhe está a acontecer. Pode viver repetidamente a dor de determinadas perdas, como acontece, por exemplo, quando alguém com alterações graves da memória recebe, uma e outra vez, a notícia da morte do cônjuge, sem conseguir reter essa informação.

Consegue imaginar o que significa enfrentar emocionalmente a mesma perda inúmeras vezes?


Todas estas dores são reais.

Mesmo que nunca as tenha sentido, existem na vida de milhões de pessoas e podem tornar-se profundamente incapacitantes.


E tornam-se ainda mais difíceis de enfrentar quando, quem nunca as experienciou, não acredita que existem. Ou quando alguém que já passou por uma situação semelhante e conseguiu superá-la, conclui que os outros também têm de conseguir fazê-lo da mesma forma.

No entanto, esquecemo-nos de que somos todos seres únicos, com diferentes bagagens, diferentes crenças, diferentes famílias, diferentes histórias e diferentes profissionais à nossa volta.

Tudo isso influencia a forma como interpretamos o mundo, reagimos às experiências, enfrentamos as dificuldades e percorremos o nosso caminho.

O facto de alguém ter conseguido ultrapassar determinada dor não significa que todas as pessoas tenham de o conseguir da mesma maneira, no mesmo tempo ou recorrendo às mesmas estratégias.

A nossa experiência não é uma medida universal da capacidade dos outros.

E é precisamente por isso que precisamos de mais conhecimento, mais sensibilidade e menos julgamentos.


Como profissional na área da saúde mental, preciso de acrescentar algo.

A dor não se cura com pessoas a gritarem umas com as outras, com desrespeito, desprezo ou humilhação.

A dor não diminui quando fazemos alguém sentir-se ainda mais culpado por aquilo que já não consegue controlar.

A dor é maior quando o governo de um país decide leis sobre algo para o qual não têm qualquer formação, ou mesmo, conhecimento básico.


O cuidado constrói-se com empatia, respeito, amor e carinho por parte da família, sempre que possível, e com profissionais que compreendem a responsabilidade que assumem quando cuidam de outro ser humano.

Profissionais que amam aquilo que fazem, que procuram compreender o paciente e que colocam o seu bem-estar no centro da intervenção, em vez de transformarem o cuidado numa disputa de egos ou num espaço onde se projetam conflitos pessoais por resolver.


O conhecimento científico é fundamental. A competência técnica é indispensável. Mas a forma como tratamos alguém que está vulnerável também faz parte daquilo que somos enquanto profissionais.


Não basta saber o que fazer. É preciso estarmos conscientes de que estamos a fazê-lo a um ser humano!


Hoje, cuidamos do familiar de alguém. Amanhã, alguém poderá estar a cuidar de um familiar nosso.

Por isso deixo-lhe uma reflexão:


Como se sentiria se alguém tratasse o seu familiar com desprezo, desvalorizasse a sua dor ou o fizesse sentir-se culpado por estar doente?

Como se sentiria se a pessoa que deveria cuidar dele fosse precisamente aquela que mais contribuísse para aumentar o seu sofrimento?

E se fosse comigo? E se fosse com alguém que amo?


Fica tranquilo com essa reflexão?

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